A primeira edição do Mech Summit, organizada pela Car Academy, reuniu 180 profissionais de oficinas portuguesas em Oeiras para debater confiança, gestão do tempo, talento, inteligência artificial e especialização. Entre os temas mais discutidos esteve o aviso de que a IA não corrige uma oficina desorganizada, apenas acelera o que já funciona.
- 180 profissionais reunidos: a Car Academy organizou a primeira edição do Mech Summit, no Lagoas Park Hotel, em Oeiras, no dia 26 de setembro.
- 65% das horas faturadas: José Pedro, CEO da Car Academy, revelou que apenas 65% das horas dos técnicos estavam a ser faturadas, mais de 80 mil euros perdidos por ano.
- Idade média do parque: 14,3 anos: segundo dados da Tips4You, os elétricos representam 27% das vendas mas apenas 2,6% das consultas de diagnóstico.
- Ticket médio quase duplicado: o Grupo Carretos viu o valor médio de reparação subir de 370 para 656 euros entre 2019 e 2026, com a especialização.
- Aviso sobre a IA: “primeiro arrumem a casa, depois acelerem”, resumiu José Pedro, sobre os limites da inteligência artificial aplicada à oficina.
Um dia para parar e olhar para o negócio
No passado dia 26 de setembro, o Lagoas Park Hotel, em Oeiras, recebeu 180 profissionais do setor automóvel para a primeira edição do Mech Summit, a cimeira organizada pela Car Academy. Ao longo do dia sucederam-se sete oradores e três casos técnicos reais, sempre à volta da mesma questão: como tornar as oficinas mais sólidas, mais rentáveis e mais preparadas para um setor em transformação acelerada.
Elsa Jorge, especialista em liderança e fundadora da Trust Connection Academy, abriu os trabalhos com o modelo de confiança assente em quatro pilares, competência, credibilidade, conexão e consistência, alertando que 76% dos jovens sentem ainda um estigma social associado às profissões técnicas. Eurico Fertuzinhos, CEO da Weoptimize, apresentou contas concretas sobre o custo do tempo perdido: apenas 15 minutos por dia com cada técnico representam cerca de 55 horas por ano, o equivalente a 275 horas numa equipa de cinco pessoas.
Um parque envelhecido que ainda não é elétrico
Pedro Barros, CEO da Tips4You, cruzou dados de viaturas novas, do parque circulante e de milhões de consultas por matrícula para traçar um retrato do mercado português: uma idade média de 14,3 anos, com a eletrificação a pesar ainda pouco no dia a dia da oficina, apenas 2,6% das consultas registadas no seu sistema, apesar de os elétricos já representarem cerca de 27% das vendas de viaturas novas. Segundo o orador, dentro de uma década três em cada quatro veículos em circulação continuarão a ter motor de combustão, pelo que o desafio não é escolher entre motor térmico e elétrico, mas preparar as equipas para os dois mundos em simultâneo.
Inteligência artificial: acelerar, não corrigir
José Pedro, também COO do Grupo J23M, partilhou o número que o levou a repensar a gestão da própria empresa: apenas 65% das horas dos seus técnicos estavam a ser faturadas, o equivalente a mais de 80 mil euros perdidos por ano. A partir dessa análise, construiu uma “escada da inteligência artificial” que vai da gestão de redes sociais à análise de dados de faturação, passando pela tradução automática de orçamentos técnicos para linguagem acessível ao cliente e por uma base de conhecimento técnico validada por pessoas.
O aviso mais repetido ao longo do dia foi, porém, sobre os limites da tecnologia: a inteligência artificial não repara o carro, não corrige uma oficina desorganizada e pode até amplificar o caos se for aplicada sobre processos que já não funcionam. “Primeiro arrumem a casa. Depois acelerem”, resumiu José Pedro. Bruno Lopes, CEO da KFZ Technik, que especializou o negócio em veículos do Grupo Volkswagen, reforçou a mesma lógica de fundo ao defender que o diagnóstico técnico, hoje 70 a 75% da atividade da sua oficina, tem de ser cobrado como trabalho próprio, e não apenas embutido no preço da peça substituída.
