Os responsáveis da Rodda, da Caetano Retail e da Santogal defenderam no Fórum ACAP AUTO’26 que o pós-venda dos concessionários vai mudar de forma profunda: menos manutenção com os elétricos, mais complexidade técnica, falta de pessoal e pressão para recuperar clientes que hoje vão para o aftermarket independente. Os sinais interessam a toda a cadeia, das oficinas aos distribuidores de peças.
- Talento escasso: mecânicos, técnicos de mecatrónica e vendedores são cada vez mais difíceis de recrutar e reter.
- Eletrificação: “Os carros elétricos não têm óleo, filtros, revisões. O pós-venda vai levar um corte”, afirmou Eduardo Lupi (Santogal).
- Novas linhas de negócio: pneus, para-brisas e outros serviços até agora secundários ganham peso nos concessionários.
- Campanhas técnicas: ocupam em algumas marcas uma parte muito significativa da capacidade das oficinas e são pior pagas, segundo Lupi.
- Modelo de concessão: os grupos preveem concentração e um modelo de stock mais próximo do just-in-time.
Um painel sobre um negócio em mudança
O painel “Retalho Automóvel: um negócio em transformação”, moderado pela jornalista Liliana Carvalho no Fórum ACAP AUTO’26, a 1 de outubro, em Lisboa, juntou André Figueiredo, administrador da Rodda, Paulo Araújo, CEO da Caetano Retail Portugal e Espanha, e Eduardo Lupi, CEO da Santogal. Em debate estiveram os recursos humanos, o modelo de concessão, a fiscalidade, a eletrificação e o pós-venda.
Falta de técnicos e novos perfis
Os três responsáveis concordaram que mecânicos, técnicos de mecatrónica e vendedores são cada vez mais difíceis de recrutar e reter, e defenderam mais aproximação às escolas, formação interna e valorização social das profissões técnicas. “É um facto de que precisamos de pessoas, mas também temos de adaptar as que temos internamente às novas tendências e saber simplificar os processos”, disse André Figueiredo.
Paulo Araújo apontou para outro tipo de perfil: “Faz falta inserir novos perfis nas organizações, com abordagens diferentes que saibam utilizar a inteligência artificial para que os processos sejam cada vez mais eficientes”. O diagnóstico, a digitalização e a IA podem automatizar tarefas, mas exigem reconversão das equipas.
O impacto dos elétricos na oficina
Para Paulo Araújo, “tendencialmente, a eletrificação levará a uma redução na assistência”. Segundo o relato do Pós-Venda, o responsável da Caetano Retail considera que os elétricos reduzem a manutenção tradicional, mas aumentam a complexidade e exigem técnicos mais especializados. Na mesma leitura, as novas marcas que chegam sem redes de pós-venda estruturadas abrem oportunidades a grupos com capacidade técnica, e os concessionários perdem para o aftermarket independente boa parte dos clientes com carros de mais de cinco anos, que poderiam tentar recuperar. “O grande desafio está nas novas linhas de negócio, pneus, limpa para-brisas e outras atividades que têm escapado”, afirmou.
Eduardo Lupi foi direto: “Os carros elétricos não têm óleo, filtros, revisões. O pós-venda vai levar um corte”. Ainda assim, lembrou que também se previu uma queda forte da chapa e pintura por causa dos sistemas ADAS, o que não se confirmou nos termos esperados, e que “o valor de reparação do elétrico é mais baixo do que o da combustão, mas a fidelidade é aquilo que difere”.
Campanhas técnicas e relação com os importadores
Lupi alertou também para o peso das campanhas técnicas e das intervenções feitas por conta das marcas e importadores, que em algumas marcas já ocupam uma parte muito significativa da capacidade das oficinas. “Temos de fazer pressão sobre os importadores. Dão os problemas mais complexos e pagam menos do que um cliente que nos entra pela oficina”, afirmou.
Concentração e stock
Sobre o modelo de concessão, os participantes consideraram que os estudos que previam o fim dos concessionários não se confirmaram e que o setor tende a concentrar-se em grupos de maior dimensão. Lupi criticou o modelo em que o concessionário compra o stock ao importador e antecipa uma lógica mais próxima do just-in-time, enquanto Paulo Araújo admitiu soluções intermédias, como modelos de agência ou stocks centralizados nos importadores. Para as oficinas independentes, a mensagem é clara: as redes oficiais querem disputar mais ativamente os veículos com mais de cinco anos.
